Olimpíadas de Pequim, Jovem descoberto pelo Navega São Paulo participará

Na época das Olimpíadas de Atenas, o garoto Nivalter Santos ainda fazia malabarismos nos semáforos da cidade de São Vicente, na Baixada Santista. Adolescente pobre da periferia, então com 16 anos, nem passava pela sua cabeça tornar-se um grande esportista. Mas, hoje, ele embarca para Pequim como integrante da delegação brasileira que vai disputar os Jogos Olímpicos. Será um dos dois atletas da equipe de canoagem. “As Olimpíadas são um sonho antigo. Desde que entrei na canoagem e vi que poderia chegar mais longe, já comecei a treinar pensando nelas”, declara Nivalter.

A mudança no rumo da vida do atleta ocorreu logo depois dos Jogos Olímpicos de 2004 e contou com a contribuição decisiva do Projeto Navega São Paulo, desenvolvido pela Secretaria de Esporte, Lazer e Turismo. Pedro Sena, treinador da seleção brasileira de canoa olímpica, destaca que a instalação de um núcleo do Navega São Paulo em São Vicente foi determinante para o sucesso de Nivalter, pois possibilitou que ele tivesse barco e remo de competição para se desenvolver. Isso porque na Associação dos Funcionários da Cosipa (AFC), local em que o jovem deu os primeiros passos no esporte, só havia equipamentos de recreação.

Nivalter conheceu a canoagem a convite de um amigo. Na época, morava num conjunto da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) ao lado da AFC. O garoto participou do primeiro mês de aulas e desapareceu, pois não tinha dinheiro para bancar as mensalidades, que custavam R$ 20,00. Voltou pouco tempo depois, por insistência e com a ajuda financeira do treinador Sena, que enxergava nele um talento promissor. Na ocasião, o Navega São Paulo também iniciava suas atividades em São Vicente, isentando os participantes do pagamento de mensalidades.

Medalhas e sonhos – “Não fosse o Navega São Paulo, com os novos equipamentos, ele nem poderia ter participado da seletiva nacional para formação da equipe brasileira permanente”, lembra Sena. Essa triagem, que ocorreu três meses depois de o garoto retornar às aulas de canoagem na AFC, garantiu uma vaga na seleção. A partir daí, começou a treinar em São Bernardo do Campo, conquistando títulos e marcas importantes.

Em 2005, ele venceu o Campeonato Sul-Americano, categoria júnior, classe C1 (prova individual) 1.000 metros. No mesmo ano, participou do Mundial Júnior, na Hungria, onde obteve a 23ª colocação. Em 2006, competiu em dupla no Mundial Sênior, também na Hungria. Nos Jogos Sul-Americanos, realizado nesse mesmo ano, na Argentina, conquistou quatro medalhas: uma de ouro (no C1 500 metros), duas de prata e uma de bronze (as três últimas em dupla). Nos Jogos Pan-Americanos, em 2007, no Rio, ficou com a medalha de bronze.

Neste ano, Nivalter obteve medalha de ouro na classe C1 200 metros, no Campeonato Pan-Americano de Canoagem Velocidade, realizado em Montreal, Canadá. A de prata, na mesma competição, obtida no C1 500 metros, garantiu sua participação nos Jogos Olímpicos de Pequim. Além disso, numa das etapas da Copa do Mundo, realizada na Polônia, alcançou o 8º lugar no C1 500 metros. Em outra etapa, na Alemanha, chegou em 5º lugar no C1 500 e C1 200 metros.

Sua especialidade é a canoa olímpica, classe C1, em que o atleta permanece com um dos joelhos num apoio. O treinador Pedro Sena explica que, por ter iniciado no esporte com quase 17 anos, Nivalter não teve todos os fundamentos de base de um canoísta (que, nessa modalidade, começa geralmente aos 12 anos). Nem por isso ele esconde que o sonho é se tornar um campeão olímpico. Agora, em Pequim, Nivalter colocou como meta estar entre os finalistas. E, com a experiência que espera ganhar nestes Jogos, poder brigar por uma medalha nas Olimpíadas de 2012.

Caminhão da mudança – Para o Navega São Paulo, Nivalter é uma referência – mas não pelo fato simplesmente de ter se tornado um atleta de ponta. O foco do projeto não é formar campeões. O objetivo, segundo a gerente do Navega São Paulo, Mônica Doll Costa, é, por meio do incentivo aos esportes náuticos (canoagem, remo e vela), propiciar o resgate social a jovens de famílias de baixa renda e em situação de vulnerabilidade social. E esse propósito, pelo menos no caso do Nivalter, o projeto tem alcançado, segundo Mônica.

O atleta nasceu em Sergipe. Filho de pescador, cedo teve contato com água e canoas. “Tinha vez que não dava para ele ir pescar e eu ia sozinho, com a canoinha”, lembra. A separação dos pais atrapalhou seus estudos. E, hoje, ele cursa a primeira série do ensino médio. A vinda para a Baixada Santista foi aos 14 anos. A mãe chegou primeiro, em busca de trabalho. Depois, mandou buscar os filhos. “Vim sozinho, junto com o caminhão da mudança”, recorda-se o atleta. Hoje, todos moram juntos: a avó, a mãe, Nivalter, duas irmãs e dois sobrinhos (nascidos em São Vicente).

Nesses quase quatro anos de dedicação ao esporte, o canoísta conta que não chegou a realizar outro tipo de atividade para se manter. A mãe, que trabalha como doméstica, “sempre me ajudou para eu conseguir realizar o meu sonho. E também o dela, que é comprar uma casa”. Por enquanto, uma
das aquisições do rapaz é um Gol 1999, comprado em 48 prestações. “Parece uma Bíblia”, diz aos risos sobre o carnê grosso, “as prestações não acabam nunca”.

A maior dificuldade para atletas de esportes não tão conhecidos, como a canoagem, é a falta de patrocínio, afirma Nivalter. “Quando tem uma competição importante, sempre aparece apoio. Mas, depois que acabam esses campeonatos, as pessoas que estavam do seu lado desaparecem, e você fica sozinho”. Atualmente, Nivalter recebe apoio da Confederação Brasileira de Canoagem, Porsani Embalagens e Universidade Metropolitana de Santos (Unimes).

Paulo Henrique Andrade
Da Agência Imprensa Oficial

One Response to “Olimpíadas de Pequim, Jovem descoberto pelo Navega São Paulo participará”

  1. Olimpíadas de Pequim, Jovem descoberto pelo Navega São Paulo participará…

    Na época das Olimpíadas de Atenas, o garoto Nivalter Santos ainda fazia malabarismos nos semáforos da cidade de São Vicente, na Baixada Santista….

Leave a Reply